13/12/2007

Depois do final feliz....


"Ela focou o seu olhar naquele ponto ínfimo da camisa dele. Um ponto pequeno, preto, insignificante em contraste com a camisola vermelha que ele usava. Deixou a vista nublar com as lágrimas, pestanejando de seguida para elas desaparecerem. O peito dele mexia-se – ainda falava – mas ela não queria ouvir: depois das primeiras palavras era já tudo um aglomerado de sons que ela recusava-se a aceitar. Só não virava as costas e fugia, pois sabia que assim que o fizesse seria o fim…o derradeiro fim de tudo, do “nós” que ela tanto adorava!
As lágrimas caíram, suavemente, deixando um rasto de calor pela sua cara, até caírem, levemente na sua sapatilha.


De repente, aquele ponto no qual ela focara o olhar deixou de ser um ponto: aquele ponto transformou-se nas memórias felizes, nos sorrisos, nos olhares, nas mãos enlaçadas, nas palavras trocadas… e no final, transformou-se no que era: num minúsculo ponto negro em contraste com a imensidão vermelha; quase como se aquele ponto – aquele ínfimo ponto, aquele insignificante ponto, aquele miserável ponto – fosse o amor dele, em comparação ao vermelho, à imensidão vermelha da camisola dele – o amor que nutria por ele. O seu peito já não mexia. Levantou a cara para o seu olhar expectante. De repente as palavras dele, as primeiras – as únicas que tinha ouvido – furaram-lhe o coração mais uma vez. Virou-se e correu – não lhe interessava que fosse o fim - fugiu. As palavras dele ecoaram mais uma vez pelo vazio que sentia dentro de si:
“Já não te amo”

02/12/2007

A chuva cai, mesmo com um céu azul!


Chove, chove tanto!

Uma parada de guarda-chuvas coloridos dançam à minha volta - mas a chuva cai, molhando-me a cara e o cabelo, e ensopando-me as roupas, enregelando-me completamente.
Corro por esta rua tão cheia; tão atolada de corpos humanos; "cadáveres adiados que procriam" - todos olham para baixo, para as pedras imundas da calçada; não levantam a cara com os olhos pregados só e apenas ao seu próprio caminho.

Sento-me no chão, por debaixo dum velho toldo dum café abandonado e vejo a vida à minha volta a circular.

A chuva já não cai - é passado - e o sol brilha no céu, com um esplendor que retira qualquer vestigio de chuva da paisagem. Olho por entre a azáfama destas pernas apressadas. O sol já brilha, mas ainda ninguém fechou os guarda-chuvas - com os olhos presos ao chão quem consegue ver o sol a brilhar?!
Ao longe um menino sorri, com o seu guarda-chuva fechado no passeio! Ele sorri (um sorriso desdentado) e olha feliz para o sol. Invejo-o... mas alegro-me. Entretanho-me a olhar para ele e a ouvir o suave tic-tac do relógio, sentada debaixo do toldo velho do café abandonado.

Entretanto um guarda-chuva, velho, roto, preto, cai ao meu lado, como por magia.
Abro-o, levanto-me, e junto-me à correria daqueles corpos.
O sol brilha... Mas há-de chover - e eu levo o meu guarda-chuva a proteger-me da dor, e os meus olhos presos ao chão para me esconder da possibilidade de sonhar com novos horizontes